A susceptibilidade da planta

Dois factores podem ditar a susceptibilidade da planta a problemas:

1 A sua susceptibilidade genética

2 O seu estado nutricional e de endurecimento (adaptação às condições pontuais)

 Compreendendo a natureza destes factores pode-se tentar contorná-los.

  1. Factores genéticos

Intrinsecamente, a susceptibilidade da planta pode depender da maior ou menor susceptibilidade genética aos vários agentes de doença (fungos, bactérias, vírus, micoplasmas, factores ambientais), ou pragas. A capacidade de resistir a estes agentes foi sendo adquirida durante a evolução pela exposição a estes, num jogo constante entre o agente e o hospedeiro, em que um desenvolve resistência e o outro tenta contornar essa resistência. Normalmente, no seu estado selvagem, as plantas sem outros factores de susceptibilidade, toleram razoavelmente bem a presença moderada destes agentes sem que isso afecte significativamente o seu desenvolvimento.

Em situações de cultivo (ornamental, hortícola, agrícola), no entanto, surgiram vários factores de vulnerabilidade: a selecção de variedades com características genéticas específicas, o cultivo em situações ecológicas diferentes daquelas em que a planta teve origem, as várias formas de nutrição praticadas pelo homem.

 A seleccão de variedades por parte do homem desleixou progressivamente as resistências – por um lado a produção de grandes flores, folhas, caules, frutos ou raízes suculentos requer um grande esforço energético por parte da planta, tornando-se estes também mais atractivos aos agentes patogénicos. Por outro lado a possibilidade da luta química contra estes agentes tornou secundária a necessidade de seleccionar plantas mais resistentes geneticamente, daí que existam actualmente variedades extremamente sensíveis, cujo cultivo com sucesso depende da utilização de químicos.

Embora isto aconteça principalmente em espécies de utilização agrícola, esta susceptibilidade também se sente em algumas ornamentais. É frequente a experiência de que as plantas com grandes flores dobradas, ou com folhagens matizadas, de cores ou formas diferentes do habitual, serem muito mais sensíveis a problemas causados por factores ambientais stressantes ou agentes patogénicos.

Pelargonium Marchioness of Bute

 

Portanto, a solução, para quem quer adoptar práticas ecológicas e evitar a utilização de químicos, é evitar a utilização de variedades geneticamente sensíveis em situações que possam ser mais favoráveis ao aparecimento de problemas. Isto nem sempre é fácil, por um lado porque a informação sobre a susceptibilidade ou rusticidade de uma planta não é facilmente obtida; por outro lado, principalmente quando se trata de espécies hortícolas, as variedades não estão facilmente disponíveis para muitas espécies.

Um outro factor de vulnerabilidade genética introduzido pelo homem foi a fácil circulação entre os vários continentes, o que permitiu a importação de novas espécies e variedades para o cultivo, mas também dos seus agentes patogénicos.

Frequentemente estes agentes encontram plantas geneticamente relacionadas com os seus hospedeiros habituais mas sem as resistências adquiridas pela convivência ao longo de milhares de anos, ou então desleixadas pela selecção por parte do homem. Nestes casos, e juntando ao facto de que o agente deixou para trás os seres vivos que o mantinham sob controlo natural, ele torna-se um verdadeiro problema, só controlável através de medidas radicais, frequentemente a luta química.

No passado situações deste género provocaram grandes convulsões, como foi o caso da grande fome irlandesa, provocada pela importação do míldio da batateira, ou do abandono do cultivo da vinha em várias regiões provocada pela importação da filoxera. Actualmente, apesar de existir um maior controlo fitossanitário na circulação de material vegetal, este controlo não é suficiente, dado que é exercido apenas sobre ameaças conhecidas e apenas em transacções comerciais. Fica de fora a circulação de plantas por parte de particulares bem intencionados, que sem saber, podem estar a introduzir ameaças graves. Este problema só poderá ser resolvido quando houver uma consciência generalizada dos riscos.

  • Estado nutricional

Como qualquer ser vivo, uma planta será tanto mais resistente aos agentes de doença, quanto melhor for o seu estado geral de saúde, dependedo esta dos factores ambientais e de factores nutritivos.

Em termos de nutrição, a planta necessita essencialmente de minerais que absorve através das raízes sob a forma de iões. Na natureza estes iões provêm normalmente da decomposição das matérias orgânicas existentes no solo e da dissolução da parte mineral do solo, sendo esta dinâmica bastante complexa e dependente dos seres vivos existentes no solo, dos elementos orgânicos e minerais do solo, do pH, do grau de humidade e arejamento, da temperatura, etc.

Simplificando um pouco, os solos que naturalmente melhor garantem a nutrição das plantas são os solos ricos em matéria orgânica, de preferência com bons teores da fracção estável da matéria orgânica do solo – o húmus (sendo este um conjunto de compostos orgânicos estáveis resultantes da decomposição de matérias vegetais e animais, que conferem aos solos as melhores propriedades de cultivo).

Em ambientes cultivados, como os jardins, as hortas ou os campos agrícolas, em que as plantas são frequentemente mais exigentes do que os seus antepassados silvestres, é necessário fazer a fertilização do solo e da planta, já que, por várias razões, os ciclos naturais de circulação de matéria não são suficientes para assegurar a nutrição destas plantas. Daqui surge a utilização de adubos e fertilizantes adicionados ao solo.

Antes do surgimento dos adubos químicos o homem tentou reforçar os processos naturais de circulação de minerais do solo, fornecendo aos solos cultivados matérias orgânicas provenientes de excrementos animais e restos de culturas, esperando que a decomposição destes alimentasse o solo e indirectamente a planta. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e a compreensão dos processos básicos de nutrição das plantas surgiu a utilização dos adubos sintéticos, com composições determinadas dos principais minerais necessários ao desenvolvimento das plantas, que fornecem estes minerais directamente à planta, sem passar pelos processos biológicos do solo. O exemplo mais extremo disto é a hidroponia, ou cultivo das plantas sem solo.

A substituição total dos processos naturais de nutrição das plantas pela nutrição com adubos minerais, principalmente pelos de síntese química tem no entanto vários inconvenientes que se reflectem ao nível da saúde da planta. Inicialmente os adubos de síntese química eram compostos pelos três elementos necessários em maiores quantidades ao crescimento das plantas, o azoto (N) o fósforo (P) e o potássio (K), nas formas minerais directamente absorvíveis pelas plantas. Isto equivaleria, num ser humano a ser alimentado com açúcares, proteínas e gorduras, na sua forma refinada, ou seja todos os elementos necessários em menor quantidade eram ignorados. Posteriormente foram sendo incluídos nos adubos elementos necessários em menor quantidade, como o magnésio, o cálcio e os oligoelementos. No entanto a nutrição das plantas com adubos de síntese continua a ser o equivalente à nutrição humana com nutrientes refinados, ou seja, ignora os processos complexos e em parte ainda desconhecidos, que ocorrem ao nível do solo e que interferem com a absorção de nutrientes por parte das raízes, e portanto com a nutrição e saúde da planta.
Daí que alimentar uma planta apenas com adubos químicos, ainda que com uma composição mais completa, não seja a forma mais saudável de alimentar a planta. Além da importância que tem na manutenção de uma boa estrutura do solo, a fertilização orgânica é importante para um bom estado de saúde da planta.
Donde se conclui que o ideal é tentar uma nutrição completa (que inclua o maior número de nutrientes possível) equilibrada (que não tenha excessos de alguns minerais, o que acontece frequentemente quando se exagera na adição de adubos químicos), e pelo menos parcialmente, de origem orgânica.
A discussão sobre as formas de fertilização é feita no capítulo de nutrição das plantas.

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